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Bahia despeja 780 milhões de litros de esgoto por dia em rios e praias

Publicada em: 24/02/2026 07:06 -

Cerca de 780 milhões de litros de esgoto não tratado foram lançados diariamente nos rios e praias da Bahia em 2024 Crédito: Arisson Marinho/CORREIO

 

Mais de 780 milhões de litros de esgoto foram despejados por dia nos córregos, rios e praias da Bahia em 2024. Os números são do estudo “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento na Bahia”, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a EX ANTE Consultoria.

 

O valor despejado naquele ano equivale a 52,5 litros diários por habitante e acompanha riscos diretos para a saúde da população e para a fauna e flora.

 

A água suja despejada deixa também consequências recorrentes. Uma evidência disso é que, atualmente, a Bahia tem 110 pontos impróprios para banho, conforme o mais recente Boletim de Balneabilidade do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), lançado no último dia 6. Salvador, por exemplo, só tem uma praia adequada. De acordo com Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, há “total correlação” entre a balneabilidade e a falta de saneamento básico no estado.

 

“Há uma procura bastante grande pelas praias baianas, um adensamento populacional cada vez maior. Essa população vai gerar esgoto e esse esgoto, quando não é tratado, vai infiltrar no solo e parar nos rios e mares”, afirma. “A natureza não consegue mais depurar todo esse volume de esgoto que está sendo lançado sem tratamento adequado, e isso faz com que haja cada vez mais poluição e os pontos fiquem impróprios para banho por conta de toda a contaminação desses microorganismos.”

 

 

Balneabilidade das praias da Costa dos Coqueiros (1) por Inema/Reprodução

 

 

A Bahia terminou 2024 com 58,4% da população sem acesso à rede geral de esgoto, índice maior que a média do Brasil, que foi de 44,8%. Em relação à água tratada, o déficit também era considerável. Naquele ano, 2,849 milhões de pessoas ainda moravam em residências sem acesso à água tratada na Bahia, o que significa 19,2% da população do estado – uma marca superior à média nacional, que foi de 18,1%.

 

Salvador foi a única cidade das regiões intermediárias da Bahia em que o indicador de tratamento de esgoto foi superior às médias nacional e estadual, com 76,5%. Os maiores déficits de tratamento concentram-se em Irecê, onde apenas 10,2% do esgoto gerado recebe tratamento, além de Paulo Afonso (16,7%), Santo Antônio de Jesus (21,2%), Guanambi (25,7%) e Feira de Santana (28,6%).

Saneamento em duas décadas

O estudo analisou o saneamento na Bahia entre 2000 e 2024, além de projetar os potenciais impactos no período até 2040, prazo limite para a universalização dos serviços básicos, conforme previsto no Marco Legal do Saneamento Básico.

Os avanços em duas décadas são evidentes: entre 2000 e 2022, de acordo com dados do Censo Demográfico, aproximadamente 3,4 milhões de baianos passaram a contar com abastecimento de água tratada, enquanto 3,1 milhões passaram a dispor de coleta de esgoto em seus domicílios. No mesmo período, o número de pessoas que vivem em moradias sem banheiro no estado foi reduzido de 3,172 milhões, em 2000, para 182 mil, em 2022.

 

O engenheiro sanitarista Jonatas Sodré reforça que, quando falamos em saneamento, estamos falando em abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem das águas de chuva. Ou seja: tem muita coisa em jogo.

“À medida que você amplia o acesso, seja do ponto de vista de aumento da 

cobertura

 de rede de de esgoto ou da distribuição de água, que o usuário passa a ter mais serviços de saneamento sendo ofertados, melhora a qualidade de vida nos mais diversos aspectos. Principalmente a população mais pobre, que, às vezes, só convive com o acesso à água potável e sofre com os problemas de saúde pública”, diz.

 

Luanna Pretto concorda, e ressalta que a falta de saneamento afeta a saúde e, consequentemente, a produtividade da população. “Quem tem acesso ao saneamento na Bahia tem uma renda média de R$ 2.317. Quem não tem, tem uma renda média de R$ 1.332. Por quê? Porque a pessoa que não tem acesso ao saneamento, muitas vezes vai ficar doente, não vai conseguir produzir. Se ela é trabalhadora informal, não ganha salário sem produzir”, diz Luana Pretto.

As doenças de veiculação hídrica, relacionadas à falta de acesso à água tratada e coleta e tratamento de esgoto – como diarreias, esquistossomose e leptospirose – são outro perigo, sobretudo para as crianças. Isso porque, no caso dos pequenos, essas doenças trazem prejuízos no desenvolvimento físico, intelectual e neurológico, fazendo com que haja dificuldade de aprendizagem.

 

“Hoje, a escolaridade média de crianças com acesso ao saneamento na Bahia é de 8,64 anos e das crianças que não têm acesso ao saneamento é de 6,20 anos. Ou seja, a gente vê uma diferença de mais de dois anos entre uma criança que teve acesso ou não ao saneamento e isso vai impactar depois na vida adulta a renda média e a capacidade de formação de uma família. Tudo isso acaba sendo afetado por conta de um direito básico que não foi atendido”, afirma Pretto.

Caminhos para a universalização

A meta do Marco Legal é que todos tenham acesso a saneamento básico até 2040. À primeira vista, os benefícios para a saúde se destacam. Mas, muitos outros campos sairão ganhando caso o objetivo seja alcançado.

No turismo, por exemplo, os impactos são consideráveis. De acordo com o estudo, a universalização do saneamento pode gerar cerca de R$ 90 bilhões na Bahia e impulsionar praias e destinos turísticos. Antes mesmo disso, a Bahia pode ter vantagens e alcançar ganhos de R$ 6 bilhões no turismo entre 2025 e 2040 com a ampliação do saneamento.

 

O caminho até lá, segundo a presidente executiva do Instituto Trata Brasil, envolve investimentos e mais atenção do poder público ao tema. “A Bahia investe hoje, em média R$ 83 reais por ano, por habitante, em saneamento básico. A média de investimento no Brasil é de R$ 139 e a média que se espera para atingir a universalização é de R$ 223 reais. Então, para que haja uma possibilidade de universalização até 2040, é necessário, principalmente, que o aumento da coleta e do tratamento dos esgotos aconteça de uma maneira mais célere. E, para isso, é necessário também maiores investimentos.”

 

Por Correio24horas

 



 

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